Vai se aposentar? Planeje-se para não perder dinheiro
19/10/2009 :.
População tem várias maneiras de assegurar renda extra ao parar de trabalhar, como bolsa de valores ou poupança. Mas, antes, precisa saber como tirar o máximo da Previdência
Antes de pensar em investir em planos de previdência privados, bolsa de valores ou poupança como forma de complementar a aposentadoria (veja quadro de rendimentos), o brasileiro deveria tentar tirar o máximo da Previdência Social. É geral o desconhecimento da população sobre o sistema, que apresenta regras complexas e que sofreram profundas modificações nos últimos 10 anos. A falta de planejamento pode levar a perdas praticamente irreversíveis de mais de R$ 1 mil por mês no benefício ou mais da metade do ganho futuro.
Alguns cuidados podem fazer diferença pelos próximos 25 anos de vida do segurado. São eles: trabalhar por mais alguns anos, aguardar a aprovação do novo fator 95/85 no Congresso Nacional e até ficar parado, sem recolher um centavo a mais ao INSS, deixando apenas contar o tempo. Para se ter uma ideia do que esses cuidados podem representar, se estiver na véspera do aniversário e deixar para se aposentar no dia seguinte, o trabalhador já terá aumentado o valor de seu benefício de 2,5 a 3%.
Aposentar sem se programar pode trazer um arrependimento imediato. É o caso real do supervisor administrativo M.O., de 49 anos, que deu entrada com os papéis no início do mês no INSS, ao completar 35 anos de contribuição. Em vez de sair feliz com a conquista, entrou em desespero ao ser informado, dias depois, que estava aposentado com R$ 1,34 mil por mês, 42% a menos em relação ao benefício integral de R$ 2,3 mil. “É uma pedrada. Fiquei desnorteado, porque sustento diversas pessoas e não tenho outra fonte de recursos”, afirma ele, que prefere ficar no anonimato por já estar sofrendo retaliações no serviço desde que comunicou a decisão de parar de trabalhar.
CANCELAMENTO M.O. já pediu o cancelamento ao INSS. O recurso da desaposentação, entretanto, só pode ser usado de forma administrativa dentro de 30 dias. Depois disso, somente nos tribunais. “Parece que as pessoas esperam a vida toda por esse momento e, na hora de se aposentar, tomam uma decisão muitas vezes precipitada. Esquecem-se de estudar as regras”, afirma Lasaro Cunha, da LCC Advogados Associados.
Segundo ele, os erros prejudicam não apenas os dois terços dos segurados que vão receber salário mínimo e que não podem abrir mão do acréscimo imediato de renda no orçamento familiar. "Não é gente simples. São pessoas mais esclarecidas, que antecipam o processo por desconhecimento ou por medo. Acreditam que é melhor receber algum dinheiro agora do que nada amanhã. Não pensam que essa decisão terá consequências de forma definitiva na sua vida por mais uma década ou duas, e que terá repercussão na pensão deixada para a mulher, que costuma ser mais nova e ainda vai usufruir dessa renda ao lado dos filhos", compara.
Basta dizer que os brasileiros se aposentam atualmente com 53,2 anos de idade, em média, sendo que cerca de 30 milhões deles continuam trabalhando depois de aposentados. Com o aumento da expectativa de vida para 72,6 anos, no caso do homem, e 76 anos, da mulher, em tese daria para segurar a decisão por mais cinco anos. Depois, teria dinheiro no bolso para descansar nos próximos 19,4 anos e 22,8 anos, respectivamente.
“O problema é que muitos deixam de avaliar as opções, aposentam de imediato e não largam o emprego antigo. Continuam recolhendo compulsoriamente ao INSS, sem expectativa de reaver esse dinheiro”, defende o especialista.
José, um brasileiro
Levantamento feito com base nas regras em vigor no INSS mostra que esperar cinco anos pode significar um acréscimo real ao benefício, que varia de R$ 256 a R$ 763 por mês. Os cálculos se baseiam no exemplo de José, um trabalhador fictício com 48 anos de idade e 35 anos de contribuição, que ganha salário de R$ 2,5 mil. Por direito, José pode se aposentar hoje por tempo de contribuição, recebendo o benefício de R$ 1.451,00 mensais (veja quadro). Se quiser, pode simplesmente parar de trabalhar e aguardar cinco anos para entrar com o pedido no INSS, deixando correr a contagem do tempo para se aposentar por idade. Com a medida, o valor sobe para R$ 1.708,00, desde que se certifique antes de que dispõe realmente dos 35 anos de contribuição comprovados.
Para melhorar ainda mais o rendimento, José preferiu continuar mais cinco anos em atividade na firma, recolhendo normalmente o INSS na carteira. Sua renda mensal será de R$ 2.040,00, com uma diferença de R$ 500 a mais para o resto da vida. Se ele for promovido ou passar a recolher como facultativo sobre o teto previdenciário (R$ 3.218,89), vai embolsar R$ 2.215,00 ao mês. Nesta última opção, porém, terá de ter disciplina para recolher mensalmente 20% do valor do teto ao INSS (R$ 643,77).
Se esperasse mais seis anos, dentro das regras do novo fator 95/85, que precisa ser aprovado no Congresso, passaria a receber a aposentadoria integral de R$ 2.546,00 mensais. “Se ele fizer tudo errado, vai perder R$ 1.095,00 no benefício. Como tem apenas 48 anos, José provavelmente vai continuar trabalhando e não pode sonegar o INSS. Só vai valer a pena a opção de ele parar de fato, ficar inativo", afirma Cunha. Ele lembra que, ao longo de 25 anos, o personagem fictício terá atingido a expectativa média de vida do brasileiro e embolsado R$ 229,2 mil com a aposentadoria integral, suficiente para comprar um apartamento de padrão médio.
Para a consultora em previdência Roseli Jaworoski, a iniciativa de se aposentar deve levar em conta a idade, o tempo de contribuição e o conjunto de contribuições desde julho de 1994, que servirão de base no cálculo do benefício. "É sempre bom fazer uma simulação antes de se decidir", diz a advogada. Foi o que fez uma cliente do escritório, com 50 anos de idade e 30 anos de contribuição. "Se quisesse ter uma renda mais atrativa de R$ 750 mensais, teria de esperar mais quatro anos.. Ela então quis fazer a conta inversa, calculando o quanto deixaria de ganhar do INSS. Digamos que ela deixaria de ganhar R$ 39 mil em benefícios durante o mesmo período. Com a aposentadoria mais gorda, de R$ 1.162,00, em dois anos ela vai recuperar esse valor. Se aplicar todo o dinheiro na poupança ou em renda fixa (6% ao ano), o montante de R$ 39 mil renderá mais R$ 6 mil, que serão recompostos em quatro meses. No caso dela, demonstramos que vale a pena esperar, porque a diferença é muito grande”, explica.
CARTA Não é necessário esperar receber a carta do INSS para programar o seguro da Previdência Social, que pode ser melhorado assim como os planos privados. Tome-se, por hipótese, a simulação feita por uma profissional liberal, dentista, que no início da carreira contribuiu sobre salário mínimo. Faltando 10 anos para se aposentar, aos 50 anos de idade, ela pode triplicar o valor do benefício se passar a pagar a partir de agora sobre o teto. O valor da aposentadoria por tempo de serviço será de R$ 1.518,00. Se permanecer no mesmo ritmo, porém, contribuindo sobre o mínimo, ao completar 60 anos, terá direito a uma aposentadoria de R$ 465 (em valores de hoje). Outra dica é buscar saber os “furos” no conjunto de contribuições pagas desde julho de 1994. Pagar os atrasados pode aumentar o valor da aposentadoria. (SK)
para comparar
Na aposentadoria por idade, em alguns casos pode ser vantajoso esperar mais tempo ou a mudança do fator para entrar com os papéis. Veja dois exemplos:
Homem
Idade: 48 anos e 35 anos de contribuição
Média de salário: R$ 2,5 mil
Aposentadoria hoje: R$ 1.451,00
Aposentadoria após 5 anos desempregado(*): R$ 1.708,00
Aposentadoria após cinco anos sobre o salário (R$ 2,5 mil):
R$ 2.040,00
Aposentadoria após cinco anos sobre o teto (R$ 3.218,89):
R$ 2.215,00
Aposentadoria após seis anos com o novo fator (95/85):
R$ 2.546,00
* Se ele recolher 0% no período, mas continuar contando tempo, desde que tenha 35 anos de contribuição comprovados
Mulher
Idade: 59 anos e seis meses e 30 anos de contribuição
Média de salário: R$ 3,2 mil
Aposentadoria hoje: R$ 2.533,00
Aposentadoria após seis meses desempregada (*): R$ 2.988,00
Aposentadoria após seis meses sobre o teto (R$ 3.218,89):
R$ 3.041,00
Aposentadoria após seis meses com o novo fator (95/85):
R$ 3,041,00 (**)
* Se deixar de recolher no período, mas continuar contando tempo, desde que tenha 35 anos de contribuição comprovados
** Nesse caso a segurada não precisa esperar a mudança do fator, pois já pode se aposentar por idade com o benefício integral
Fonte: Jornal Estado de Minas (19.10.09)