A âncora do emprego
No Brasil, o desemprego cresceu bem menos do que em outros
países e isso explica por que o País está saindo
mais rápido da crise global
01/07/09 - Menos de seis meses depois de demitir 1,3 mil funcionários
para se adaptar à nova realidade do mercado internacional,
a Companhia Siderúrgica Nacional se prepara para aumentar a
produção. Na semana passada, a empresa anunciou a criação
de 1,2 mil empregos nos próximos meses, para colocar em operação
o alto-forno 2 da usina Presidente Vargas, reformado com um investimento
de R$ 100 milhões. "Somos a primeira siderúrgica
do mundo a começar a contratar", disse o presidente da
CSN, Benjamin Steinbruch.
Também na semana passada a Volkswagen brasileira, contrariando
a crise do setor no mundo, anunciou a contratação de
200 funcionários por tempo determinado, além da efetivação
de outros 600 que haviam sido admitidos como temporários.
Anúncios deste tipo ainda são raros na indústria,
que sofreu com a queda nas exportações. Mas setores
da economia que dependem mais do mercado interno pouco sentiram a
retração mundial. No varejo, as vendas subiram 6,9%
e o faturamento aumentou 13% em abril em relação ao
mesmo mês do ano passado. No acumulado dos quatro meses, a alta
é de 4,5%, com aumento de 10,6% na receita.
A chave dessa aparente indiferença da economia doméstica
em relação à crise internacional é o emprego.
Enquanto em vários países da Europa e nos Estados Unidos
a taxa de desemprego quase dobrou nos últimos meses, no Brasil
a alta foi inferior a um ponto percentual - e já começa
a recuar. Entre junho de 2008 e maio deste ano, a taxa passou de 7,9%
para 8,8%. Nos EUA, o desemprego aumentou de 5,6% para 8,9% entre
junho do ano passado e abril deste ano, e na Espanha saltou de 6%
para 11%.
Aqui, com a manutenção do desemprego em níveis
razoáveis, o rendimento também subiu e com ele se manteve
o poder de compra do trabalhador. O resultado pode ser visto no PIB
do primeiro trimestre. Apesar da queda de 1,8% na atividade econômica
como um todo, o consumo das famílias cresceu 0,7% em relação
ao primeiro trimestre do ano passado. "O emprego e a renda ajudaram
a segurar a economia", disse à DINHEIRO o economista Fernando
Sampaio, da LCA Consultores. A renda foi mantida com os reajustes
de salários acima da inflação e com o aumento
do mínimo. "Isso não aconteceu por acaso. Teve
um peso importante da política econômica", diz ele.
A manutenção da renda e do emprego formaram um círculo
virtuoso. Depois do primeiro choque com a crise mundial, em outubro,
o setor produtivo pisou forte no freio e a produção
despencou nos últimos dois meses do ano. O Caged, sistema do
Ministério do Trabalho que registra as contratações
e demissões com carteira assinado, mostrou perda de 40 mil
empregos em novembro, de 654 mil em dezembro e de 101 mil em janeiro.
Com as medidas adotadas pelo governo para incentivar a venda de veículos
e ampliar a oferta de crédito nos bancos e sem novas notícias
de demissões em massa, o mercado começou a se normalizar.
Com emprego e dinheiro no bolso, o consumidor continuou comprando,
estimulado também pela redução dos juros e o
alongamento dos prazos. "A renda cresceu bastante até
março, e isso sustentou as vendas no mercado doméstico.
A partir de agora os reajustes salariais devem ser mais fracos, mas
a estabilização do emprego pode compensar", disse
à DINHEIRO Ariadne Vitoriano, analista da Tendências.
O Caged também mostrou a retomada da produção
e das contratações a partir de fevereiro. "O mercado
de trabalho teve uma piora muito rápida, mas esse quadro já
se reverteu", diz Sampaio. Em maio, foram 131 mil novos empregos
e, pela primeira vez, com saldo positivo em todos os segmentos da
economia. "Vai melhorar mais e vamos fechar o ano com saldo de
um milhão de empregos", disse à DINHEIRO o ministro
do Trabalho, Carlos Lupi.
Fonte:
IstoÉ Dinheiro (01.07.09)